terça-feira, 26 de junho de 2018

Verdade ou consequência

 
Hoje vou sem calcinha para a escola. Era uma ideia tola, mas ser piranha deveria significar mais que gostar de um menino e um outro lhe arrancar um beijo. No fim das contas, a escola era mesmo um espaço de sobrevivência. Não esquecia do dia em que chamaram seus pais. A velha diretora disse que ela distraía os meninos da turma, sorriu para mãe falando “tão moderninha, já usa até maquiagem”. A mãe apenas a repreendeu com os olhos.
Tirou a saia e a calcinha. A maquiagem estava ali, abandonada no quarto, ao lado das bonecas mais antigas. O Betinho já tinha falado que ela ficaria muito linda, era só se esforçar um pouco mais. Ele sempre pegava no pé dela. Já era difícil ser a primeira da classe a usar sutiã, mas aguentar ele puxando o elástico e fazendo um barulhão no meio da aula era demais. No desvio do tapa, ele só piscou e disse “só te incomodo porque te adoro”. Ela foi esforçada, tentou até alguns tutoriais de make, mas ainda lembrava da cara da diretora e o olhar da mãe. Era melhor passar um batom mais leve dessa vez. Escolheu o carmim.
Olhou para o espelho e descarnou os lábios. A sua imagem refletida a incomodava. Melhor tirar o sutiã também. Aqueles seios brotaram-lhe cedo demais, grandes demais. Andava de ombros encolhidos para maquiar-lhes o tamanho. O tio Adroaldo, vizinho amigo da família, já tinha feito o alerta “Você vai dar muito trabalho ao seu pai” seguido de um olhar estranho à beira da piscina. Mas ele se enganou, ela já dava trabalho.
Na volta da escola, mês passado, um caminhão passou ao seu lado devagar e buzinou. Por que os meninos têm que usar abrigo e nós saia no uniforme? Ela fechou a cara rente ao chão e apressou o passo. Um velho baixou o vidro e a chamou, assoviou, gritou. Ela deixou o cabelo esconder a face, andou feito cavalo, olhos fixos à frente. Só foi distraída pela água, seguida do impacto da garrafa, atirada do caminhão. “Devia se sentir agradecida pela buzinada, vadia”, gritou a voz, antes do caminhão arrancar. Coração desacelerou um pouco e olhou constrangida para a rua. Alívio, não tinha ninguém olhando. Ao narrar o episódio em casa, a mãe comentou “dramática como sempre, isso que dá ser canceriana”.
Menos por drama, mais por convicção, procurou o coordenador pedagógico para contar sobre a educação física. O professor, que sempre lhe corrigia a posição na quadra apertando sua cintura ou segurando o pescoço com um leve afago, foi um pouco além. No último treino, avançou abaixo do uniforme. “Você tem certeza? Ele é um pai de família, e essa acusação pode custar-lhe o emprego. No fim das contas será sua palavra contra a dele” proferiu o coordenador. Ao sair da sala, ela ainda ouviu algo como “as mulheres podem tudo, mas devem ter cuidado com as consequências”.
Amarrou o cabelo e deu uma última analisada na sua imagem. Está bom, mas vou descalça. Será que ela realmente queria chamar a atenção ou era um simples efeito do mundo? Sorriu, pois assim ficava mais bonita, dizia o treinador. Pegou a mochila sobre a cama e afagou a cabeça da gata. Desceu as escadas deu tchau na saída de casa. “Não vai comer nada antes da escola?”, mas a mãe só ouviu a porta como resposta e resolveu espiar pela janela. Num sobressalto, passou pela sala gritando “Clemente, nossa filha está indo pelada para escola”. “Já falei que as saias estão cada vez mais curtas”, disse o pai sem tirar os olhos da televisão e ouviu a mesma porta como resposta. A mãe já ganhava rua com uma toalha na mão.

sábado, 2 de junho de 2018

Amores literários

Tem gente que separa os tipos de gostar. Para uns a paixão é mais intensa e limitada; o amor, mais constante e multiplicador. Para mim, todas as formas de gostar são amores travestidos em suas intensidades e receios, com doses complexas e finitas. Amamos pessoas e livros, em graus distintos, mas em verdades semelhantes. Talvez por isso, nenhum binômio explique melhor nossas vidas quanto amores e textos vividos. Somos uma espécie de estante permanente de leituras que passaram. Algumas pessoas já estão meio empoeiradas, outras têm as lombadas gastas, mas todas estão acomodadas dentro de nós.
Há histórias trágicas, marcadas por confusões, grandeza de sentimentos, pensamentos violentos, que por vezes nos remetem à adolescência. Quase sempre guardamos bem as cenas, mas os personagens são meio apagados. Outros romances são mais light, na calmaria de emoções e vida numa meia estação. Desses, quase sempre esquecemos nomes, datas e chegamos a confundir alguns títulos.
Existem amores didáticos, em que aprendemos e nos desenvolvem de forma a não retornarmos mais ao momento anterior. Pode ser por dor ou prazer, a compreensão de sentimentos próprios é uma vivência que apenas algumas histórias nos proporcionam. Dessas guardamos momentos de transformação, mas os cheiros tendem a nos escaparem.
Já vivemos trilogias, que continuam de tempos em tempos e releituras que acreditamos fazer diferente, porque não somos a mesma pessoa nem o mesmo rio, mas o final continua inalterado. Gostamos muito dos amores em edição luxo, aqueles com capa dura e muitas fotos com curtidas em redes sociais. Desses quase sempre guardamos imagens e atores, mas cá entre nós como são pesados! Aproveitamos amores pocket, de curto tempo e enredo resumido, mas com histórias interessantes. E sempre tem os clássicos, daqueles que quando retomamos nossa trajetória, estão lá balizando a caminhada de alguma forma, ou pelo menos os mais lembrados pela família.
De todas as certezas que tenho olhando para as prateleiras, a mais acertada é que os livros que amamos nos tornaram a pessoa que somos. Da mesma forma que estante minguada, ou cheia de livros novos sem leitura, é retrato de solidão e imaturidade emocional. Se somos o resultado dos amores vividos, um coração cheio de livros sentidos é um lugar a ser revisitado sempre. É uma bênção. É releitura cheia de redescobertas. É o que torna nossas vidas ricas em experiências e nossos sentimentos fortes em realidades, consistentes por si só. Termos sido amantes ávidos é que possibilita viver a história atual de maneira plena e, talvez, diante do emaranhado de sentimentos confirmados pelo tempo, de modo definitivo.

PS.: Texto encomendado e publicado pelo Insta @mulherdeveneta

sábado, 12 de maio de 2018

A inocência de ser mãe




O que é ser mãe? Uma criatura de olhar piedoso, sorriso frouxo e abraço esquisitamente aconchegante, e que representa nas nossas vidas mais que estereótipos de amor puro?
Não sei, mas acho que mãe é o que se precisa ser. Às vezes amor, outras vezes um chinelo (sem nenhuma apologia a nada). O fato é que ser mãe e ser mulher, são faces de uma mesma moeda muito complexa e pouco desvendada. Creio que até um pouco empoeirada pela rotina do dia a dia.
Penso isso porque vejo na mulher que tive como modelo de mãe, um misto de força, beleza, paciência, amor, mas acima de tudo uma eterna criança. Em época de individualização e pessoas "únicas" em tudo, engraçado ver como as mães todas se parecem um pouco na criancice de serem.
De uma comida, sempre bem feita, que ficam à espera de um elogio, que quando não sai, a pergunta vem: ficou bom? E quando o elogio sai sem a pergunta, rapidamente um sorriso se ilumina no rosto.
Passando pela forma como elas mudam de uma cara fechada dando um bronca a um sorriso quando interrompemos elas dando beijos e dizendo aqueles apelidos carinhosos que só a família conhece.
Até a roupa cheirosa e da casa bem cuidada,  e dos pequenos mimos do dia a dia e dos grandes sacrifícios da vida. Você já agradeceu a sua mãe despretensiosamente ou inesperadamente? Experimente, mães são crianças travestidas de responsabilidade.
Não erro em dizer que minha mãe foi a criança mais responsável que já existiu, porque a alegria e simplicidade de viver ainda fazem dela uma eterna criança. E descubro em outras Mães, crianças envelhecidas. Não pelo peso da responsabilidade. Isso envelhece, mas não entristece. Vejo algumas mulheres maltratadas pela falta de percepção de seus filhos. Não veem que os sonhos delas não ficaram para trás, eles se transformaram e ganharam novos formatos e novas perspectivas, através da vida de seus filhos. 
A arte de ser mãe creio estar na simplicidade de ser uma criança ainda. Daquelas que aprendem a mexer no facebook e saem contando pra todo mundo.  Que criam grupo da família no whatsapp e nos mandam bom dia e boa noite.  Que choram quando a gente diz que ama no telefone e sentem saudade de cheirar o pescoço de um filho.
Toda mãe é uma Maria, como a minha, como a sua, como a de um menino que morreu há quase dois mil anos. Às vezes faltam a elas um pouco de amor em forma de reconhecimento que disseram que elas tinham de sobra., aquele pedaço de paraíso no qual se padece. Nenhum ser humano tem amor de sobra. Somos feitos sob medida. E se todas as Marias se parecem, descubra você também a criança que existe na sua, elogiando, abraçando, cheirando o cangote ou roubando comida enquanto ela frita bolinhos. Não só por elas, mas por vocês. Descobrir a criança que existe na minha mãe me fez perceber que amor de verdade existe e ele mora no sorriso e na forma de nos olhar.  Seja presente nesse dia, nao importa a distância, e sinta reluzir um um jeito inocente de ser que só as mães possuem.

domingo, 15 de abril de 2018

Nossa adolescência política


Vivemos um momento de transição muito perigoso na política nacional. Não só pela falta de candidatos com perfil de gestor, mas principalmente pelo excesso de eleitores com perfil de adolescente. Basta começar uma discussão sobre administração pública que logo fica clara a imaturidade brasileira com o tema, seja pela bipolarização emburrecida ou pela falta de entendimento e argumentos nas discussões.
Que a democracia é um conceito relativamente novo para o brasileiro, isso é até histórico. Contudo, já possuímos algumas eleições na nossa conta para que o nível seja um pouco melhor do que tem acontecido. Com os hormônios políticos aflorados, os debates tem um quê de conversa juvenil que ainda me apavora. É um bate-boca no facebook, um "falar sem ouvir" de um lado, um "não me chateie" do outro, que as pessoas tem terminado as conversas fechadas nos seus quartos. Uma atitude tipicamente infantil.
A criancice chega ao ponto de não perceber que a discussão política fala sobre formas de vivermos melhor em sociedade, de administrar dinheiro público e responsabilizar maus administradores. Passamos a brigar apenas por ter razão. E a razão é tão ingênua que as rusgas são travadas apenas pelos cargos executivos, seja de presidente, governador ou prefeito. As pessoas se marginalizaram a tal ponto no entendimento de democracia, que esquecem do legislativo como força motriz do estado. Basta analisar a lista dos eleitos para deputado e vereador que não tinham o menor preparo para a função. E quando falo preparo, falo estudo não escolar e acadêmico, mas de como pode representar melhor os seus eleitores, trâmites burocráticos e legais.
Que os candidatos à presidência tenham maior importância, até entendo, estamos falando de representação máxima do país. Mas não falar sobre o congresso nacional é alienar um dos aspectos mais importantes da administração pública. São os caras que votam TUDO, a começar pelo orçamento. Se duvida, basta olhar o que tem acontecido no jogo de pautas da casa legislativa. Como adolescentes falamos de uns, brigamos por esses, mas não olhamos o todo.
Outro ponto fundamental dessa nossa infantilização é uso de fontes não oficiais. Lembram, quando na escola alguém vinha falar "me disseram isso de você"? Pois é, temos feito igual na política. Uma população que acredita piamente em algumas mídias, não leem os dois lados e o pior, desconsideram fontes oficiais. Nos sites dos governos, nas diversas esferas, é possível saber tudo sobre verbas, projetos, faltas, viagens. Mas não, vamos apenas pelo que a mídia A fala. Porque do alto da sapiência juvenil sabemos que a mídia B é partidária do pessoal do governo (isso foi uma ironia, só para lembrar).
Numa conversa esses dias, um amigo falou "mas isso tudo é um jogo". É uma imensa verdade. Jogo de interesses, jogo de favores, jogo de verdades e mentiras, jogo de estratégia. E o que mais me transtorna é perceber que a maioria desconhece as regras do jogo. Esquecem que a partida começa com o voto, mas ela continua na cobrança, na fiscalização, com a manifestação de que você está seguindo o seu representante. Na forma adolescente mais orgulhosa e vaidosa, as pessoas se dizem experts em política, mas na verdade é muita banca, marra juvenil. Falta estudo, leitura e até vontade, porque está tudo na internet. TUDO.
Creio que ainda temos muito que caminhar enquanto democracia. O exercício do voto ainda é uma questão coronelista e de escopo reduzido. Votamos no mais próximo e não no mais qualificado, entendemos que há um jogo, mas não sabemos os técnicos, nem mesmo o time (olha o troca troca de partido!). Sei também que a questão levantada aqui passa pela educação, aliás, tudo passa por ela, não seja adolescente nisso também, mas temos uma boa parcela da população com acesso à internet. A legislação sobre transparência, abre um mundo de informações disponíveis para pesquisa dos eleitos e futuros candidatos. Quem sabe possamos aproveitar essa adolescência a nosso favor e pelo menos stalkear a vida pública e administrativa de nossos representantes.

terça-feira, 20 de março de 2018

Quando a pressa chega ao coração

Todos nós ouvimos que o mundo tem pressa, que a vida acelerou e que seríamos muito mais felizes se nosso dia fosse como o daquela propaganda de Banco e tivéssemos pelo menos trinta horas. Abrimos três, quatro ou mais navegadores no computador, comemos em pé, mandamos mensagem no trânsito, e quando alguém começa a contar uma história pessoal pela palavra "então", seguida de um suspiro, invariavelmente olhamos para o relógio. Talvez isso tenha acontecido por causa dos norte-americanos e seu lema "tempo é dinheiro" ou simplesmente com os fastfoods. Não importa, o fato é que escolhemos acelerar a vida e com ela aceleramos nossos sentimentos.
Desejamos ficar ricos sem muito trabalho. Sair do ensino médio sem muito estudo e passar no ENEM. Entrar numa faculdade, aprender mil coisas sem ler e estudar. Sair para a vida profissional ganhando dez mil reais por mês no primeiro emprego. Mesmo sem conseguir, compramos coisas sem ter o dinheiro e parcelamos o que ainda vamos ganhar, se continuarmos vivos.
Ambicionamos corpo trincado sem fazer exercícios, dietas sem sacrifícios, fazer cirurgias temerárias para corrigir uma estética da urgência. Queremos tudo isso comendo durante o ano como se fosse Natal, e de preferência antes do verão, é claro.
Estamos cada vez mais ansiosos. Esperamos o próximo feriado, planejamos as próximas férias, ainda em férias, e por vezes pensamos no que fazer de janta na hora do almoço. Queremos ler livros com leituras dinâmicas para não ler todo o livro, ficamos fãs de spoilers. As metas tem que ser cada vez mais próximas do presente e nossa capacidade de planejar a longo prazo está se esvaindo.
Mais perigoso que tudo isso, é a perda na nossa capacidade de construir alguma coisa dentro de nós mesmos. Essa pressa em edificar uma personalidade, moldar uma forma de viver baseado em si mesmo, tem nos levado a procurar com desespero algo que nos falta, internamente, nas outras pessoas.
Basta olhar para os relacionamentos. Pessoas que sonham com filhos antes de um parceiro, que priorizam o imediatismo da família como velocidade em se apaixonar. Pessoas que olham para o passado com desespero das relações falidas e agora buscam por um Frankenstein, aquele ser que tenha todas as qualidades dos ex relacionamentos sem nenhum defeito deles.  Desejam sexo no primeiro encontro. Mas não um simples amasso, anseiam por algo avassalador. Pele com pegada. Beijo com gosto. Tesão a flor da pele, uma espera contínua, pela melhor transa de todos os tempos com uma pessoa semidesconhecida. Consumidores de sentimento em busca de um Combo, amor, sexo e carinho. Sim, porque tudo isso deve ser precedido, e sucedido, de conversas agradáveis, olhar misturado com sorrisos, e aquela frase mais desejada (e por vezes falsamente forjada) "nossa! parece que nos conhecemos há tanto tempo...".
Estamos vivendo no limite das nossas emoções. Num constante acelerar-se. Vivemos por mais tempo que nossos antepassados. Vivemos não, existimos por mais tempo. Viver está relacionado em evoluir, em autoconhecimento transformado em ser melhor que ontem, sentindo cada fase de um novo sentimento. Um encantar-se pelo momento. Um se apaixonar pelas escolhas, assumindo seus riscos. Quando a pressa chega ao coração, abandonamos o propósito maior e passamos a correr em círculos atrás do próprio rabo, perseguindo um único sentimento, relegando os outros. Quando a pressa chega ao coração, a cabeça dá voltas ao redor da pergunta "será que já vivi um grande amor e ele passou, ou ainda não o encontrei?". Quando a pressa chega ao coração é hora de desacelerar, de sentar em banco de praça e contemplar um pouco o momento. Do contrário, esqueça o conceito de viver e comece a se acostumar com a simples ideia de existir.