quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Quando nasce um pai





Dizem que toda mulher nasce para ser mãe assim como todo homem nasce para ser pai. Ledo engano. Nascemos e ponto. O que nos tornamos depende de muitas coisas. No caso dos pais, há muitos que sequer nasceram homens e outros que já até partiram dessa vida e, em ambos os casos, são excelentes pais. Num dia que se comemora a presença, permanente ou temporária, deles em nossas vidas, nada melhor do que nos perguntar como nasce um pai. Uma coisa é certa: eles não nascem com o nascimento de um filho.
Apesar da palavra pai representar em sua origem o gerador, a questão genética, sabemos que o caráter de um guia está mais ligado ao conjunto de ações que a um teste de paternidade. No popular brasileiro, pai é aquele que cria. Uma espécie de tutor. Com suas várias tipificações.
Tem o pai tradicional, modelo clássico, casado com a mãe. Apresenta-se como chefe da família e é um macho alfa tradicional. Vive uma linha tênue entre dar o exemplo, exigindo respeito, e dar carinhos pedindo chamego. Um cara que oscila entra o controle da distância dos mundos disciplinador e afetivo.
Tem o pai que é avô. Ele é pai do pai ou um pai fora do seu tempo. Já perdeu o controle das distâncias e entre perdas que já teve acredita que carinho é insubstituível. Tem a voz de conforto para várias situações, mas ainda está se adaptando ao whatsapp. Não fala muito ao telefone e sempre que vai se emocionar arruma um jeito de ir ao banheiro, dizendo que "bexiga de idoso é complicada" e sai à francesa.
Tem o pai que é mãe. Aquele que por algum descaminho ficou com os dois papéis. Escova cabelo de menina melhor que algumas mulheres e até dança algum hit teen. Sabe não só das tecnologias como dos diversos dicionários tribais urbanos.
O pai que já partiu é, estranhamente, um dos mais presentes. Parece que a voz está sempre viva dentro de nós e a cada situação que passamos, essa voz reaparece em forma de conselho. O timbre, a cadência, os erros de português e até o cheiro da colônia voltam ao ouvido e, como se estivesse ao nosso lado, solta o conselho que sempre teve no bolso.
Tem o pai que é casado com outro pai. Sim, a sociedade mudou, mas os laços de tutoria e guia se mantiveram. E esse casal de pais está aí. Educando, amando, fazendo com que muitos "machões" entendam que carinho e afeto independem de escolha sexual. Tem um jeito mais brando, mais materno até, mas quando precisa o pulso firme, está lá. E aos preconceituosos de plantão fica o aviso de que eles não estão criando pessoas para serem homossexuais ou não, esses pais estão muito mais preocupados com humanidades e felicidade da sua prole que muito cara que se diz pai.
Tem o irmão mais velho que é um pai. Ele meio que se autodelega o sucessor monárquico da casa. O pai de fato, presente ou ausente, não deixou nenhuma representação legal, mas eles estão lá. Tirando-nos de enrascadas, por vezes buscando bêbados em festas ou simplesmente dando aquela bronca quando o carro foi raspado na garagem. São chatos, autoritários, mas ao entrarmos numa briga logo vemos a força que eles ganham em defender seus "filhos".
E como não falar das mães que são pais. Arrisco em dizer que elas são em número bem grande hoje. Com o homem presente ou não, essas mulheres estabelecem linhas de conduta e firmeza no processo de criação que algumas escolas militares ficariam com inveja.
Pais tem dos mais diversos tipos, mas todos tem uma questão exatamente igual. Sem exceção. Em um determinado momento eles fizeram uma escolha. Optaram por serem responsáveis pelas nossas vidas. E isso inclui muito mais que dinheiro. Guiar uma pequena criatura, a ponto de se tornar qualquer coisa, requer vigília constante, sem férias nem descanso. Acompanhar, limitar, ensinar o que a vida não te ensina sem bater mais forte. Fazer entender conceitos que não tem explicação (como se explica a uma criança de 2 anos o que é um choque da tomada?), entender lições que estão à frente da nossa linha evolutiva (como se faz para um adolescente entender que a base escolar vai determinar sim muita coisa da vida adulta?). Quando a vida tira as rodinhas da bicicleta, não precisamos olhar para trás para saber que ainda há as mãos deles nos guiando.
Um pai nasce no momento em que se ergue sob nossas sombras essa mão constante de apoio; um afago muitas vezes invisível, mas que se transforma em uma pequena lágrima a cada conquista nossa; um trabalhar constante para oferecer um futuro melhor. Um pai nasce se chamando Roberto, Paulo, José ou até mesmo Maria muito antes mesmo de nascer o filho. Outras vezes, muito tempo depois do filho chegar. Não se sabe exatamente quando nossos pais nasceram, mas se há algo a ser comemorado é a vida nos brindado em termos nascido depois deles e encontrado um lugar mais seguro para crescer, simplesmente por ter um verdadeiro pai.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ainda precisamos falar de André Contini



Nunca é tarde para falar de machismo. Não só daquele que espanca visualmente ou psicologicamente uma mulher e termina expulso do Big Brother. É preciso voltar nossos olhos para as entrelinhas. Porque, enquanto há mulheres brigando contra um sistema de pensamento confortável que se esconde atrás de uma máscara de "pensamento da minha geração", há outras tantas mulheres jogando contra. Crucificando as "Suesllen Tonani" que andam por aí tentando trabalhar e defendendo os tantos José Mayer que existem. Mulheres que criam alguns Andrés sem perceberem que o exemplo acaba se estabelecendo como verdade única na cabeça de garotos que insistem em não crescer.
Como todo Mayer existente, o André em questão também se desculpou (segue o link). E, ironicamente, adoramos uma desculpa, porque elas eximem o erro, mas nunca a ofensa. Em todo o caso, não é sobre a coluna em si, nem o conteúdo, que é mais do mesmo existente no mercado. A questão é que as mulheres que estão, literalmente, atrapalhando o feminismo não se dão conta que fazem isso dentro de suas casas e na criação de pequenos machistas.
Vou recorrer a meu querido mestre Sérgio Freire, doutor em linguística, para tentar explicar como o discurso em casa pode ser mais perigoso que os da televisão. Quando se usa expressões do tipo "o pai não ajuda em casa" ou quando a mulher pede para o filho "ajudar com as coisas da casa", a mensagem que se passa é que as coisas da casa continuam sendo da mulher e os homens tem que ajudar. Ora, se eu moro naquela casa, isso não é ajuda, isso é obrigação. Se sujo uma louça, tenho que lavar. Como sujo minha roupa, de usá-la todos os dias, por que não ter obrigação de lavá-la? E é no conforto de viver com a mãe, aos 30 anos de idade, que se esconde uma raiz machista que teima em sobreviver.
As pequenas expressões de afastamento do homem e da mulher nascem no seio da família. Independente da estrutura dela. Ao contrário do que se possa imaginar, quem me ensinou que lavar louça, estender roupa ou manter a casa organizada era obrigação, não foi minha mãe, foi meu pai. É nessas pequenas práticas, divisão simples de tarefas, diálogos expostos, conselhos de ambos os pais, que temos que pensar.
Não basta vir aqui e sentenciar a Dona Ana (mãe do André). Isso é típico de sistema repressor. Precisamos pensar as pedagogias domésticas, aqueles educadores morais que por vezes se escondem atrás da rotina de trabalho do dia a dia. Que chegam cansados em casa, sem ânimo para educar e acabam fazendo o trabalho dos filhos sem perceber a filosofia que está sendo disseminada. Um filho é um perpetuador de cultura, como fala aquele vídeo, crianças veem, crianças fazem.
Dizem que as grande vitórias são feitas de pequenas batalhas. Enquanto personalidades como Astrid Fontenelle, Julia Tolezano, Letícia Sabatella entre tantas outras, vão aos holofotes, expõem casos, desafiam em discursos bem assentados e dão a cara a tapa, numa sociedade ainda muito resistente, é importante que as milhões de mães também comprem essa briga por educação em casa. A responsabilidade é de todos nós, incluindo os pais, tios, primos, não importa o parentesco, homens totalmente inclusos. Mas é necessário lembrar que, só no Brasil, há cerca de 20 milhões de mães solteiras que, sem perceberem, sem se darem conta, acabam ainda alimentando o conforto machista. Criando filhos em casa até os 30 anos e ainda levando janta no quarto, lavando, passando a roupa e transformando em grilhões o carinho imaginado.
Esqueçam as qualidades que uma mulher precisa ter. Esqueçam os rótulos e os estereótipos, no final de tudo, uma mulher só precisa ser livre. O que ela fará com essa liberdade faz parte da beleza que todo ser humano sonha em ter.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O amigo gay da minha namorada

 Tradicional pelada entre amigos e posterior cerveja. Na conversa, sempre animada, um dos amigos fala: 
- Pessoal, tenho que ir embora, minha namorada tá me incomodando por causa do futebol, não quer que eu venha. Ela acha que vai rolar putaria depois.
- A minha disse a mesma coisa. Tá difícil jogar um futebol, o jeito é começar a aprontar - diz o outro, enquanto todos rimos.
- A tua não te incomoda? perguntou-me um deles.
- Não. Temos nossas vidas separados. Tenho amigos e amigas e ela também. Hoje, por sinal, tá numa janta na casa de um amigo.
Foi o mesmo que ter tomado um gol por entre as pernas. A zueira foi geral. De corno a trouxa, os elogios só se multiplicavam. Foi então que fiz a besteira de mencionar que o amigo em questão, além de ser de longa data, antes de eu ser o "namorado", ainda era homossexual muito bem resolvido, o que não me causava risco.
Então se seguiu um longo debate filosófico sobre amizades entre homens e mulheres e sobre serem ou não homossexuais. Ao final, um deles soltou uma pérola que me fez ir pra casa pensando muito: Tu tem sorte da tua namorada ter um amigo gay!
Algumas discussões não valem o desgaste. Amigos de futebol, são para futebol (e nem estou ofendendo porque eles não vão ler esse blog, embora alguns curtirão). Mas olhando mais de perto o problema, se amigos são os parentes que nos permitem escolher. Talvez essa não seja uma frase tão estranha quanto suas implicações sociais. Ter um parente homossexual ainda é um tabu em pleno 2017, escolher um amigo ou amiga então, nem se fala.
O fato é que passamos por uma crise de consideração com o outro, sem precedentes. A existência do EU como centro do mundo é o novo dogma da humanidade. Ninguém previu essa escassez de respeito, porque ninguém considerou a possibilidade de uma involução. Ora, se temos mais acesso a informação, então somos uma sociedade melhor formada, como é possível involuir? O fato é que há uma imensa disparidade social que não está elencada apenas nas diferenças monetárias. Quando pensamos em nós em primeiro lugar, independentemente da posição social que ocupamos, estamos necessariamente falando em nossos desejos, em nossas necessidades mais básicas e primitivas. Daí, a dificuldade de homens e mulheres serem amigos, pois enquanto os instintos primários estiverem aflorados, ali estarão sempre um macho e uma fêmea: a base da dualidade animal.
Contudo, há mais pessoas pensantes livres por aí,  o que faz dogmatizados e racionalistas andarem misturados na sociedade. Soltos no Tinder e a procura de alguém. O que gera a tal dificuldade de se manter uma boa conversa hoje em dia é encontrar o par que saiba conversar na mesma amplitude que você. Quando mulheres e homens inteligentes se encontram, levam o sexo e o intelecto a um relacionamento diferente. Um relacionamento sem ideia de dominação e as tradicionais tensões sobre quem exerce a autoridade ali. E uma coisa é certa, não se pode conquistar respeito pelos mesmos métodos de se obter poder. E o pensamento masculino, no geral, ainda é de dominação.
Isso porque a conquista sexual ainda é tida como um prêmio entre os homens. Veja bem, adoro sexo, mas no geral os homens precisam de várias mulheres para lhes dar a ilusão de que estão vivos.  Como poderiam aprender a amar as mulheres sem tentar possuí-las? Ilusão. O sentimento de vida está no fato de coexistirmos.  E nesse lance, amizade entre homossexuais e heterossexuais, nas quais o desejo deixa de ser agressivo, tem forjado um novo e significativo relacionamento. São duas minorias que preferiram sair do estreito caminho da conformidade. Ao enfrentarem um inimigo comum na sociedade, eles descobriram quão importante é um amigo. A fidelidade entre ambos não nasce da necessidade de se utilizarem, de se satisfazerem, mas da cumplicidade de serem minorias. De se entenderem por estarem ali para isso. Não precisam erguer bandeiras. Estão ligados pela emoção. E sabemos que uma emoção é mais contagiosa que uma ideia. Assim deve ser o amor, a descoberta do outro. E uma amizade verdadeira pressupõe esse sentimento, indiferente ao sexo.
Ao pensar que a minha defesa, nem sei bem do que, foi relacionar a amizade com a sexualidade, percebo que ainda não há respeito suficiente circulando entre nós. Que talvez eu mesmo tenha cultivado pequenas quantidades dele. É necessário ir além do olhar cruel que sempre mantivemos. Nada é mais difícil do que ser curioso sobre um objeto ou um pessoa sem a obstrução de ideias preconcebidas. Uma ideia antiga é parte de um sistema de pensamentos que carregamos. Veja, um sistema não é parte de nós é bagagem, é peso que herdamos e, como tal, pode ser modificado. Nessa ressignificação, deveríamos ficar extremamente felizes pelos amigos que cultivamos, independente das opções sexuais de cada um deles. Porque amizade está um degrau acima disso. Talvez fosse melhor rotular o mundo entre colegas, conhecidos e amigos. Essa gradação sim é importante e escolhida com carinho. Carinho esse, que faz com que o "amigo gay da minha namorada" não tenha nenhum outro rótulo além de amigo.
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Namore alguém que consiga ficar sozinho

 
É comum as pessoas criarem listas de melhores conselhos. Tão normal que volta e meia surge algum texto que te dê dicas sobre os mais variados assuntos, "dez peças que não podem faltar no guarda-roupas", "15 filmes para se ver antes de morrer" e assim listamos tudo. De todas essas formas de organizar a vida alheia, a que mais me perturba é a que lista qualidades que as pessoas devem ter em um relacionamento.
Tipo "namore com quem leia bastante" ou "saia com caras que abram a porta do carro". São boas dicas, afinal leituras e gentilezas elevam qualquer relacionamento a outro patamar. Contudo, não basta ter uma coisa ou outra para se relacionar. É preciso mais que isso, é necessário que a pessoa descubra suas qualidades e defeitos. E das várias formas de buscar esse autoconhecimento, talvez a mais transcendente seja a experiência de morar sozinho. Se for namorar alguém, experimente uma pessoa independente, que seja dona, mesmo que locatária, do seu próprio canto.
Quando se administra uma casa ou apartamento a primeira coisa a se desenvolver é o senso da responsabilidade. A provisão de que as coisas durem no tempo certo, seja dinheiro no mês ou eletrodoméstico pelo maior tempo possível, passa a ser encarado como meta de vida. Zelar pelo que é seu, mesmo que seja momentâneo. E isso não vem com uma ordem da mãe ou uma reunião dos amigos da república onde se mora. Quando outros falam o que devemos fazer, ainda não sabemos o quanto isso se torna necessário. Não faz parte da gente como costume. É apenas quando a louça acumula na pia e os bichos começam a aparecer que a gente sente a real necessidade de manter um ambiente habitável. Entende, a partir daí, que limpeza, saúde e durabilidade estão alinhados de uma forma que jamais entendemos até sentir no próprio bolso.
Outro lado interessante da vida exclusiva é a autenticidade. A cada dia mais e mais descobertas sobre como somos é aliada a como podemos viver melhor. Mesmo que esse melhor seja apenas a maneira mais fácil de existir. Trocar camisetas de algodão por malha fria que não precisa passar ou encontrar a melhor forma de estender a roupa, passam a exigir um elaborado sistema de tentativas e erros. Nessas pequenas descobertas, que a vida eremita nos presenteia, está o fato de que escovar os dentes, assim como todo asseio, faz parte de uma vida ajustada. O lixo não caminha para fora de casa e as compras não aparecem na geladeira. Não há vozes lembrando que a água está no fim e, em época de desconexão presencial, pedir pó de café aos vizinhos é uma afronta tão grande quanto cumprimentá-los. Quem mora só não tem em quem por a culpa quando se quebra um copo ou não se paga uma conta e termina percebendo que mentir para si mesmo não é uma opção, então por que passar trabalho mentindo para outra pessoa?
As coisas não funcionam mais para impressionar. Elas são um reflexo do que somos e, se com o tempo a gente muda, as coisas acompanham o processo. Logo deixar a casa com a nossa cara vai além do "lar doce lar" do Hulk. Tem relação com a organização, mesmo que seja no caos individual que a gente cria. Daqueles pequenos ecossistemas que quando a mãe aparece para visitar e decide "arrumar" ou a diarista "organiza", passa-se dois ou mais dias procurando suas coisas. E aí se percebe que cada pessoa tem seu modo de ajustar a vida. Entender isso é meio caminho para um relacionamento feliz, pois idiossincrasia não é mais um conceito abstrato. Está ali, no modo como mantemos a mesa do computador (des)organizada ou deixamos o saca-rolhas na gaveta dos panos de prato.
Outro lance interessante da vida avulsa é o instinto de sobrevivência. Acordar sozinho com uma febre alta ou uma dor de garganta, e ter que ir atrás das próprias coisas, torna a pessoa mais sensível. Num relacionamento posterior, o cuidado passa a fazer parte do dia a dia. Daquele que já acordou indisposto sem ter ajuda e passa a entender que um simples chá trazido na cama, não é mais um simples chá, e sim uma xícara de carinho. Uma forma de empatia que não necessita imaginação, pois foi vivenciado em algum momento de solidão no passado.
Outra face da vida independente, e talvez a mais atrativa, é a liberdade. Tudo nos é permitido. Na verdade, a permissão não existe mais e a pergunta da vez é "o que queremos para hoje?". No início se quer tudo. Depois de um tempo, os desejos diminuem. Com mais alguns anos, só queremos paz. Quando se mora sozinho, valoriza-se os momentos de solidão e retiro. Respeitar esse tempo e esse espaço passa a ser uma filosofia de vida. É importante que se mantenha um tempo seu e, na contramão dos relacionamentos, torna-se importante que o outro tenha um tempo para si. Quando as pessoas percebem a importância disso, passam a respeitar pequenos espaços numa vida conjunta. Sem brigas. Os dois percebem isso.
De tudo isso, você pode extrair a certeza de que um relacionamento com alguém que é dono do seu próprio espaço já inicia com uma margem segura de êxito. A pessoa já traz na bagagem autoconhecimento, senso de organização, princípios de empatia e muitas manias que nada mais são que autenticidades de não se importar em fazer algo daquela forma. Quem já passou por isso, sabe quanto há de verdade nisso tudo. Portanto, ao invés de ficar procurando alguém dessa ou daquela forma para namorar e ter um relacionamento duradouro, siga uma pequena dica: more sozinho(a) primeiro. Seja você a sua primeira escolha. Saiba habitar dentro de si, de uma forma que não se tenha medo de ficar a sós com os próprios pensamentos. Busque, no autoconhecimento, entender que princípios são bases reais do nosso caráter. Ficar só por algum tempo é uma forma de perceber o peso da responsabilidade das nossas escolhas, enfrentando os medos, assumindo riscos, fazendo sobreviver diariamente os sonhos e sendo sincero conosco. Talvez dessa forma, estejamos prontos para nós mesmos, para aquele processo de individuação que tanto desejamos. Porque a busca desenfreada por melhorar apenas o outro, é uma marca dessa sociedade cada vez mais egoísta, que culmina com apontar os defeitos alheios e toda aquela série de desencantamentos que afunda uma relação após a outra. Todos merecem a melhor versão de nós, a começar nós mesmos.






segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sexo, diálogo e comunicação



Poucos temas são tão controversos quanto o sexo. Todos gostam, mas quase não falam sobre.
Esses dias me perguntaram sobre gostar ou não de sexo e no meio da fala veio a frase "homens naturalmente gostam de sexo, mulheres não". Infâmia pura. Sexo é instinto. Logo sexo é sexo e não tem muito mistério. Todos gostam, porque como animais somos impulsionados. As variáveis em termos de desejos reprimidos deixo aos amigos psicólogos, especialistas no assunto.
Minha área é a comunicação. E sexo é comunicação.
Mas o que faz ele ser bom? Na verdade, isso já não é tão certo e nem tem fórmula pronta. Mas há algumas dicas que podem nos ajudar, além da prática, é claro.
Rubens Alves fala algo interessante e que compartilho.

"As pessoas sabem que o objetivo do jogo amoroso é ele mesmo, o prazer e a alegria de estar brincando. A conversa é uma metáfora dos jogos amorosos. Quem não sabe conversar não sabe transar"

Quem gosta de conversar gosta de pessoas. Invariavelmente a conversa inclui uma concessão de espaço e pressupõe que você esteja disposto a ceder tempo e atenção para realmente compreender aquilo que o outro diz. Quem gosta de sexo por sexo, gosta de si. Pode até sentir prazer sozinho. Mas quem dispensa uma boa conversa? Daquelas de horas perdidas, de rir e sentir um efeito estranho pela simples cia? Se encontrar conversas assim está difícil, imagine quando se apimenta a intimidade. Ler o corpo é mais que uma forma libidinosa de Braille. Nesse processo, está envolvido um diálogo entre mídias desconhecidas.
Conversar com arrepios e suspiros (que em nada lembram o curso de inglês de alguns filmes como o "oh, my god"), está relacionado com o grau de alfabetização na outra pessoa. A questão, e creio que é o maior barato desse jogo, está em cada pessoa ter um alfabeto próprio. Nenhuma carta de amor é igual a outra.
Não existe um dicionário. Existem bilhares de pequenos pessoaonários e a leitura faz parte do diálogo.
Só conhecendo cada página que montamos esse manual dos termos e travamos conversas cada vez mais intensas e gostosas. Essa intimidade comunicacional da cartografia dos prazeres pede tempo. Pede espaços próprios. Pede interesse mútuo. Pede vocabulário para a comunicação, para que o sexo seja mais que um protocolar diálogo e se torne uma conversa de horas perdidas.







domingo, 12 de junho de 2016

Pecados resumidos: quando o beijo encaixa


Foi então que o beijo encaixou.
Mas não encaixou de imediato. Houve um silêncio entre dois suspiros. Ainda de olhos abertos e os semblantes embaralhados, o beijo foi adiado como quem inspira se preparando para ficar muito tempo embaixo d’água. 
Por fim o mergulho.
Não bastou encostar os lábios e esperar ouvir os sinos. Não. Aquele beijo tinha urgência em ser o comum de dois mundos. Depois daquele encaixe, tudo mais parecia sempre ter estado ali. A gravidade diminuía e o tempo se dificultava em passar.
As mãos se multiplicavam na pressa de fazer o outro entender tudo o que as bocas não perdiam tempo em falar. E puxavam a cintura, e emaranhavam os cabelos, e se esticavam da nuca ao ouvido, e encontravam as mãos, e, por fim, eram esquecidas e relembradas cada vez que se respirava.
Havia um gosto atrevido em cada mordida que os lábios ganhavam. Um sabor safado que se ouvia baixinho no tesão mascado entre um gemido e outro que das bocas escapavam. Os dois tinham sede. Até então tinham sido beijos semiáridos. Inférteis. E no encaixe, já havia chuva embriagada por línguas que não cessavam. Ora se tocavam, ora deslizavam entre os dentes e os cantos da boca. De repente, numa pausa de infinitos milissegundos, os lábios se afastaram, os olhos semiabriram, voltou-se o ar aos pulmões, e a língua, desavergonhada, percorreu lentamente toda a curva da boca enquanto as duas mãos seguravam o rosto. Antes de completar a primeira volta, ouviu-se um “aiee” seguido de um novo mergulho para dentro do beijo.
Aquilo nascia em algum lugar entre os desejos guardados e os pensamentos planejados, e se perdia no espaço que era possível fisicamente. Parede virava cama, chão era usado de cadeira, e a única regra era sequir as vontades. Havia música, ou pelo menos dançávamos. Existia cadência nas idas e vindas das mãos, no choque entre os corpos. Tudo parecia acontecer com precisão. 
Precisavam-se. 
Permitiam-se. Apoderavam-se do momento em que todos os sentidos se reuniam e se perdiam.
Não beijavam para impressionar ao outro. Beijavam para si e sabiam que isso bastava para que o outro recebesse algo maior. E houve um riso. Uma certeza devassa de que um beijo encaixado era prenúncio de reciprocidade no que houvesse pela frente. Quando mais novos, eles esperavam pelo momento do sexo. Amadureceram os sentimentos, apuraram os sentidos e resumiram seus pecados. Hoje, esperavam por aquele beijo.
Foi então que o beijo encaixou.




quinta-feira, 2 de junho de 2016

Sobre a estranha arte de gostar de mulheres



Gostar de mulheres. Sei que vivemos uma época em que opiniões majoritárias podem ser açoitadas pela variedade de egos, ou que apoderamento feminino por vezes é mais estético que ideológico. Mas se eu puder lhe dar um conselho sobre uma das poucas certezas que tenho na vida, gostar de mulheres é o que mais pode definir a sua personalidade. Mas quando digo mulher, digo mulher de verdade, não dessas em calendários e capas de revista com photoshop, ou sempre azuis de felicidade em facebook, menos ainda das filtradas em Instagram. Falo da mulher em tempo integral. Quando se descobre o quanto é bom ser amante das sinceridades femininas, acabamos por aceitar a verdade: mulheres são encantadoras.
Reconheço que há um lado punk no universo delas, afinal de contas mulher é o dobro de hormônios dos homens em um espaço reduzido. São paradoxos que se estendem por calendários lunares, TPMs e não se encerram no tempo. Esqueça o estereótipo de Amélia, mulher verdadeira é muito mais que multitarefas é multisentimentos, e sabe que para ser feliz tem que dar forma a todos eles. Da mãe, que cuida da casa depois de dois turnos de trabalho, à independente que valorizou sua carreira para evitar o machismo social, o que torna uma mulher livre não são suas escolhas, mas sim suas atitudes diante delas. Ser mulher de verdade, não se resume em aceitar condições adversas, e ultrapassa o sentido da palavra altruísta. Difícil imaginar altruísmo maior que ver o corpo se transformar totalmente a ponto de não caminhar sem parecer uma pata, só para dar luz a um novo ser.
A mulher verdadeira entende que ela é alma. O corpo pertence ao processo natural e que cuidar dele faz parte da manutenção do ciclo da vida. Por isso que dizem que beleza é um estado de espírito. Nós homens não conseguimos compreender muito bem isso porque está além, mas basta entender o processo e saber admirar para que isso logo se torne parte do encantamento delas.
É lindo ver uma mulher que sabe gozar, consigo mesma, com um cara ou uma mulher, não importa. O limite do prazer não está contido apenas no sexo, e a mulher, diferente do homem, consegue se arrepiar de uma passada de mão no cabelo, com uma simples olhada de admiração, até com um bom livro ou música. Sem contar com o bom e velho chocolate. Aliás, sobre sexo, confesso que nunca fiquei feliz em ouvir que mulher tem que ser puta na cama e donzela na sociedade. O sexo e a cama são assuntos privados, intimidades que não precisam ser relatadas por diários de meninos adolescentes (às vezes meninos de 50anos) no meio social, muito menos grupos digitais. O que uma mulher é, e volto às atitudes, pertence a ela e a seus eleitos. Puta, dama, mãe, filha, tanto faz, porque a beleza está na postura de ser feminina, até mesmo em situações mais extremas.
Sobre essa estranha arte de gostar de mulheres, aprende-se com o tempo que maquiagem não esconde o que elas são, mas ajuda a revelar. Roupas não dizem nada dos desejos, mas ajudam a projetar sentimentos. Que uma mulher segura de si é capaz de transformar uma sociedade inteira, tamanha força contida. E me entristece ver meninas novas tendo esse espírito quebrado por homens que se sentem garotos perto de uma mulher. Leoni que me desculpe, mas perto de uma mulher de verdade nos sentimos muito mais homem. A autoconfiança não é uma ameaça, mas uma sedução. Não consigo deixar de sentir pena da limitação masculina diante de uma pseudocompetição. Namorar com mulheres que ganham o dobro do salário de um homem não é demérito para ele. Na verdade isso não tem nada a ver com o homem em si ou sua limitação, mas sim com oportunidades que elas abraçaram, carreiras, e a maioria das vezes, está totalmente relacionado com dedicação delas. Nesse lance de envolvimento profissional ainda nos falta muito para igualarmos às moças.
Aos iniciados na arte de gostar de mulheres, indico uma máxima: só saia com mulher de verdade. Não temam as irregularidades sociais de uma mulher verdadeira. Ela é puro instinto e hormônios, e isso a faz mais livre, e isso a faz mais sincera, e isso a faz mais mulher. Se tiverem que fugir do gênero, que seja da candura das mocinhas adaptáveis, das Helenas de Manoel Carlos e não das Capitus que a vida nos apresenta. Mulher com olhos de ressaca em dia de mar bravo não afundará vocês, pelo contrário, será capaz de levar onde o mar tem mais encantos e onde as ondas são maiores. Onde a vida tem muito mais graça. Não se deixem enganar pelos estereótipos sociais. Não há prazer em conquistar mulheres para serem só suas, o nome disso é cárcere. Se quiserem ser felizes mesmo, permitam-se caminhar ao lado de uma mulher livre, apoiem nos dias de baixa e apreciem a verdadeira expressão de um ideal de beleza nos dias de alta. Gostar de mulher não é um sentimento de superioridade, mas sim de contemplação e respeito. No instante em que se aprende isso, perde-se a vaidade de conquistar uma mulher e inicia-se um riso bobo de admiração. 
Você já admirou uma mulher hoje?