terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O amigo gay da minha namorada

 Tradicional pelada entre amigos e posterior cerveja. Na conversa, sempre animada, um dos amigos fala: 
- Pessoal, tenho que ir embora, minha namorada tá me incomodando por causa do futebol, não quer que eu venha. Ela acha que vai rolar putaria depois.
- A minha disse a mesma coisa. Tá difícil jogar um futebol, o jeito é começar a aprontar - diz o outro, enquanto todos rimos.
- A tua não te incomoda? perguntou-me um deles.
- Não. Temos nossas vidas separados. Tenho amigos e amigas e ela também. Hoje, por sinal, tá numa janta na casa de um amigo.
Foi o mesmo que ter tomado um gol por entre as pernas. A zueira foi geral. De corno a trouxa, os elogios só se multiplicavam. Foi então que fiz a besteira de mencionar que o amigo em questão, além de ser de longa data, antes de eu ser o "namorado", ainda era homossexual muito bem resolvido, o que não me causava risco.
Então se seguiu um longo debate filosófico sobre amizades entre homens e mulheres e sobre serem ou não homossexuais. Ao final, um deles soltou uma pérola que me fez ir pra casa pensando muito: Tu tem sorte da tua namorada ter um amigo gay!
Algumas discussões não valem o desgaste. Amigos de futebol, são para futebol (e nem estou ofendendo porque eles não vão ler esse blog, embora alguns curtirão). Mas olhando mais de perto o problema, se amigos são os parentes que nos permitem escolher. Talvez essa não seja uma frase tão estranha quanto suas implicações sociais. Ter um parente homossexual ainda é um tabu em pleno 2017, escolher um amigo ou amiga então, nem se fala.
O fato é que passamos por uma crise de consideração com o outro, sem precedentes. A existência do EU como centro do mundo é o novo dogma da humanidade. Ninguém previu essa escassez de respeito, porque ninguém considerou a possibilidade de uma involução. Ora, se temos mais acesso a informação, então somos uma sociedade melhor formada, como é possível involuir? O fato é que há uma imensa disparidade social que não está elencada apenas nas diferenças monetárias. Quando pensamos em nós em primeiro lugar, independentemente da posição social que ocupamos, estamos necessariamente falando em nossos desejos, em nossas necessidades mais básicas e primitivas. Daí, a dificuldade de homens e mulheres serem amigos, pois enquanto os instintos primários estiverem aflorados, ali estarão sempre um macho e uma fêmea: a base da dualidade animal.
Contudo, há mais pessoas pensantes livres por aí,  o que faz dogmatizados e racionalistas andarem misturados na sociedade. Soltos no Tinder e a procura de alguém. O que gera a tal dificuldade de se manter uma boa conversa hoje em dia é encontrar o par que saiba conversar na mesma amplitude que você. Quando mulheres e homens inteligentes se encontram, levam o sexo e o intelecto a um relacionamento diferente. Um relacionamento sem ideia de dominação e as tradicionais tensões sobre quem exerce a autoridade ali. E uma coisa é certa, não se pode conquistar respeito pelos mesmos métodos de se obter poder. E o pensamento masculino, no geral, ainda é de dominação.
Isso porque a conquista sexual ainda é tida como um prêmio entre os homens. Veja bem, adoro sexo, mas no geral os homens precisam de várias mulheres para lhes dar a ilusão de que estão vivos.  Como poderiam aprender a amar as mulheres sem tentar possuí-las? Ilusão. O sentimento de vida está no fato de coexistirmos.  E nesse lance, amizade entre homossexuais e heterossexuais, nas quais o desejo deixa de ser agressivo, tem forjado um novo e significativo relacionamento. São duas minorias que preferiram sair do estreito caminho da conformidade. Ao enfrentarem um inimigo comum na sociedade, eles descobriram quão importante é um amigo. A fidelidade entre ambos não nasce da necessidade de se utilizarem, de se satisfazerem, mas da cumplicidade de serem minorias. De se entenderem por estarem ali para isso. Não precisam erguer bandeiras. Estão ligados pela emoção. E sabemos que uma emoção é mais contagiosa que uma ideia. Assim deve ser o amor, a descoberta do outro. E uma amizade verdadeira pressupõe esse sentimento, indiferente ao sexo.
Ao pensar que a minha defesa, nem sei bem do que, foi relacionar a amizade com a sexualidade, percebo que ainda não há respeito suficiente circulando entre nós. Que talvez eu mesmo tenha cultivado pequenas quantidades dele. É necessário ir além do olhar cruel que sempre mantivemos. Nada é mais difícil do que ser curioso sobre um objeto ou um pessoa sem a obstrução de ideias preconcebidas. Uma ideia antiga é parte de um sistema de pensamentos que carregamos. Veja, um sistema não é parte de nós é bagagem, é peso que herdamos e, como tal, pode ser modificado. Nessa ressignificação, deveríamos ficar extremamente felizes pelos amigos que cultivamos, independente das opções sexuais de cada um deles. Porque amizade está um degrau acima disso. Talvez fosse melhor rotular o mundo entre colegas, conhecidos e amigos. Essa gradação sim é importante e escolhida com carinho. Carinho esse, que faz com que o "amigo gay da minha namorada" não tenha nenhum outro rótulo além de amigo.
 

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