terça-feira, 18 de abril de 2017

Ainda precisamos falar de André Contini



Nunca é tarde para falar de machismo. Não só daquele que espanca visualmente ou psicologicamente uma mulher e termina expulso do Big Brother. É preciso voltar nossos olhos para as entrelinhas. Porque, enquanto há mulheres brigando contra um sistema de pensamento confortável que se esconde atrás de uma máscara de "pensamento da minha geração", há outras tantas mulheres jogando contra. Crucificando as "Suesllen Tonani" que andam por aí tentando trabalhar e defendendo os tantos José Mayer que existem. Mulheres que criam alguns Andrés sem perceberem que o exemplo acaba se estabelecendo como verdade única na cabeça de garotos que insistem em não crescer.
Como todo Mayer existente, o André em questão também se desculpou (segue o link). E, ironicamente, adoramos uma desculpa, porque elas eximem o erro, mas nunca a ofensa. Em todo o caso, não é sobre a coluna em si, nem o conteúdo, que é mais do mesmo existente no mercado. A questão é que as mulheres que estão, literalmente, atrapalhando o feminismo não se dão conta que fazem isso dentro de suas casas e na criação de pequenos machistas.
Vou recorrer a meu querido mestre Sérgio Freire, doutor em linguística, para tentar explicar como o discurso em casa pode ser mais perigoso que os da televisão. Quando se usa expressões do tipo "o pai não ajuda em casa" ou quando a mulher pede para o filho "ajudar com as coisas da casa", a mensagem que se passa é que as coisas da casa continuam sendo da mulher e os homens tem que ajudar. Ora, se eu moro naquela casa, isso não é ajuda, isso é obrigação. Se sujo uma louça, tenho que lavar. Como sujo minha roupa, de usá-la todos os dias, por que não ter obrigação de lavá-la? E é no conforto de viver com a mãe, aos 30 anos de idade, que se esconde uma raiz machista que teima em sobreviver.
As pequenas expressões de afastamento do homem e da mulher nascem no seio da família. Independente da estrutura dela. Ao contrário do que se possa imaginar, quem me ensinou que lavar louça, estender roupa ou manter a casa organizada era obrigação, não foi minha mãe, foi meu pai. É nessas pequenas práticas, divisão simples de tarefas, diálogos expostos, conselhos de ambos os pais, que temos que pensar.
Não basta vir aqui e sentenciar a Dona Ana (mãe do André). Isso é típico de sistema repressor. Precisamos pensar as pedagogias domésticas, aqueles educadores morais que por vezes se escondem atrás da rotina de trabalho do dia a dia. Que chegam cansados em casa, sem ânimo para educar e acabam fazendo o trabalho dos filhos sem perceber a filosofia que está sendo disseminada. Um filho é um perpetuador de cultura, como fala aquele vídeo, crianças veem, crianças fazem.
Dizem que as grande vitórias são feitas de pequenas batalhas. Enquanto personalidades como Astrid Fontenelle, Julia Tolezano, Letícia Sabatella entre tantas outras, vão aos holofotes, expõem casos, desafiam em discursos bem assentados e dão a cara a tapa, numa sociedade ainda muito resistente, é importante que as milhões de mães também comprem essa briga por educação em casa. A responsabilidade é de todos nós, incluindo os pais, tios, primos, não importa o parentesco, homens totalmente inclusos. Mas é necessário lembrar que, só no Brasil, há cerca de 20 milhões de mães solteiras que, sem perceberem, sem se darem conta, acabam ainda alimentando o conforto machista. Criando filhos em casa até os 30 anos e ainda levando janta no quarto, lavando, passando a roupa e transformando em grilhões o carinho imaginado.
Esqueçam as qualidades que uma mulher precisa ter. Esqueçam os rótulos e os estereótipos, no final de tudo, uma mulher só precisa ser livre. O que ela fará com essa liberdade faz parte da beleza que todo ser humano sonha em ter.

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